Trevas Entre Nós

Trevas Entre Nós

Involuntariamente, você cruzava meu caminho. Não era todo dia, é verdade, mas com uma frequência que me fazia pensar: “Será que é o sangue que nos liga puxando essa linha invisível entre nós?” Você se lembra disso, não lembra? Eu costumava dizer que era coisa de família, destino talvez, aquele tipo de coincidência que a gente insiste em romantizar.

Teria sido bom se tivesse ficado só nisso.

Eu não contava que, depois de tudo, os problemas começariam a me perseguir também. E há algo de brutalmente cruel na sensação de que você cometeu um erro — um erro sem volta — e que, aos poucos, o mundo começa a sussurrar que a conta tá chegando. É como um aviso sutil da própria existência, um lembrete de que nada se apaga completamente.

Ultimamente, viaturas policiais começaram a aparecer com uma frequência estranhamente maior. Estavam, obviamente, investigando. Talvez frustrados por não encontrarem respostas, talvez convencidos de que estavam chegando perto. Já se passou bastante tempo desde... aquilo. Um mês? Quatro semanas? Já nem sei mais. A verdade é que parei de contar. E, pra ser sincera, parei de me importar também.

Eu sei que, inevitavelmente, serei encontrada. É só uma questão de tempo. Até lá, sigo fazendo o que venho fazendo desde o início: me escondendo atrás de mais um rosto falso, mais um nome inventado.

Naquela noite específica, um domingo, por volta das 22h30, eu simplesmente não consegui mais suportar o ar dentro de casa. Estava sufocando. O silêncio, os cantos vazios, as memórias encostadas nas paredes... tudo parecia conspirar pra me aprisionar nos meus próprios pensamentos. E isso, você sabe, se tornou um lugar perigoso pra mim. Tão perigoso que, se me permite fazer uma piada no meio da desgraça, até a casa corre risco.

Acabei surtando. Comecei a me bater, a destruir o que via pela frente, como se quebrar o ambiente ao meu redor fosse uma forma de calar o que gritava dentro de mim. Um espelho foi pro chão nessa brincadeira, tive que comprar outro depois. Mais um reflexo que não quis encarar.

Enfim.

Saí de casa. Fui andar. Acabei indo parar em uma ponte de madeira que atravessa o lago da cidade. Um lugar bonito, silencioso, e mais comprido do que eu lembrava. Acho que uns 80 metros de extensão. Fiquei ali por um tempo, caminhando devagar, as mãos dentro do bolso da minha jaqueta, só deixando o vento bater e levando o peso dos meus ombros, pelo menos por uns minutos.

E, por mais estranho que pareça, foi terapêutico. Caminhar naquela ponte, olhando a água, ouvindo nada além dos próprios passos... acho que era disso que eu precisava. Um tipo de terapia improvisada no meio do caos. Não curou nada, claro. Mas deu pra respirar. E isso, naquele momento, já era muito.

Mas, é claro... tudo que é bom tem prazo de validade. Clichê, eu sei, mas raramente algo tão banal fez tanto sentido.

Eu tinha te encontrado de novo. À distância, como de costume. Só que, dessa vez, algo estava diferente. Você não caminhava tranquila, não parecia imersa nos seus próprios pensamentos como sempre. Não. Aquela cena me atingiu como um soco no estômago.

Você estava cercada. Duas figuras — claramente cúmplices, sincronizadas no gesto e na ameaça — te encurralavam. Elas estavam encapuzadas com casacos que alternavam entre o preto e o azul, e suas calças jeans possuíam a mesma cor azul escura. Uma delas levantou uma faca em sua direção, e naquele instante tudo caiu pra mim. Seu corpo tremia visivelmente, e o pânico estampado no seu rosto era tão avassalador quanto estranho. Aquela expressão não pertencia a você. Não combinava com o seu rosto. Era como se o medo tivesse invadido um espaço que nunca deveria ter conhecido.

Vi você, desesperada, entregando o que parecia ser sua bolsa, seus pertences. E, mesmo sem conseguir escutar claramente as palavras que eram ditas ali, o contexto falava por si: um assalto. Um assalto frio e covarde.

Eles arrancaram tudo de você com brutalidade e, em seguida, correram. Sumiram, te deixando sozinha no meio da rua, desamparada, esvaziada de tudo, menos da dor.

Ver aquilo partiu meu coração em pedaços.

Ver você caída no chão, abraçando os próprios joelhos, tentando conter o choro com as mãos trêmulas, foi como ser forçada a reviver memórias que eu desejava enterrar pra sempre. Lembrei de você encolhida no seu quarto, tentando salvar o que sobrava dos seus desenhos depois que ele os rasgava sem pensar duas vezes. Lembrei dos lápis quebrados, dos silêncios forçados, dos olhares perdidos.

Lembrei também das vezes em que você se isolava na escola. Enquanto outras crianças riam, cochichavam, te apontavam, você se calava, sempre tentando desaparecer. E agora, ali, diante de mim, era como se todas essas dores tivessem voltado a te assombrar de uma vez só.

Corri até você em completo desespero. Cada passo que me aproximava fazia meu coração derreter um pouco mais, o simples ato de te ver machucada conseguiu ser capaz de me desarmar por inteiro.

— Garota..? Garota, o que houve? — perguntei, com uma voz que tremia entre o fingimento e o pânico. Eu sabia, é claro que eu sabia. Eu tinha presenciado tudo. Mas fingir ignorância era o preço que eu tinha que pagar pra me manter ao seu lado, mesmo que sob uma máscara.

Você levantou a cabeça num sobressalto, como se minha presença fosse mais um golpe do destino. Seu olhar hesitante, entre o medo e o cansaço, me atravessou como uma lâmina fina — e cortou fundo.

— Ah... quem é você agora? Outro ladrão? — você retrucou, virando o rosto como quem já esperava o pior, como quem já tinha se rendido.

Aquela pergunta.. ai, doeu tanto, filha. Mas eu não podia me permitir sentir dor ali. A verdade é que era esse o peso de me esconder.

Agora lá estava eu. Precisando, de algum modo, conquistar um fragmento da sua confiança. Um só. Um caco de vidro por onde eu pudesse entrar, sem te assustar ainda mais.

— N-não, imagina... nada disso. Eu só... te vi caída aí e fiquei preocupada, quis saber se você precisava de ajuda. — murmurei, desviando o olhar como se a vergonha pudesse se dissipar com o vento.

Você bufou, exausta, e respondeu com a voz rouca de raiva e frustração contida:

— Aqueles filhos da puta levaram a minha bolsa. Tudo meu tava ali. Celular, salário, as chaves de casa... tudo. Agora tô aqui, sem nada, fodida e mal paga. É isso. Precisa de mais?

Você despejou aquelas palavras em cima de mim com uma mistura de fúria e desamparo que me engoliu viva. Mas eu entendi. Na verdade, eu entendi perfeitamente. Você tinha todo o direito de cuspir o mundo na cara de qualquer um que estivesse por perto. Eu era, pra você, só mais uma estranha intrometida.

E o que mais doía não era o tom. Não era a distância. O que me corroía de verdade era saber que eu não podia te acolher como deveria. Não podia te abraçar, dizer que estava tudo bem agora, que eu ia resolver tudo — como toda mãe desesperada gostaria de dizer à filha.

Mas naquele momento, tudo o que eu podia fazer... era engolir. Engolir o choro, o impulso, a vontade imensa de gritar quem eu era. Engolir tudo, até a minha própria existência, pra não te machucar mais.

Virei os olhos na direção por onde aqueles dois canalhas haviam escapado. Ainda conseguia vê-los, silhuetas correndo a todo vapor, atravessando a ponte como se o inferno estivesse no encalço deles. E, talvez, estivesse mesmo.

A ponte era longa, o suficiente para me dar tempo de pensar, ou pior, sentir. E foi aí que o ódio reacendeu em mim. O mesmo ódio corrosivo, quente, que senti quando matei aquele homem. Uma raiva sólida, que se alojava bem no centro do peito e começava a pulsar. A mesma vontade de antes. A mesma força cega que me tornou isso que sou agora.

Virei o rosto pra você. Meu olhar tinha perdido qualquer traço de suavidade. Agora era firme, frio, como o aço de uma lâmina prestes a ser empunhada.

— Olha... só deixa pra lá, tá? Eu... eu consigo recuperar tudo com— — você tentou começar, ainda trêmula, ainda tentando acreditar que alguém podia colocar ordem no caos.

Mas eu não deixei você terminar.

— Não. Não precisa se preocupar. Eles não foram tão longe. — Minha voz saiu mais baixa, mais grave, como se estivesse falando com alguma coisa dentro de mim mesma. Meus olhos percorreram o ambiente com precisão quase militar. — Essa ponte tem uns oitenta metros de extensão. Pela nossa posição e pelo tempo que passou, a gente já deve ter avançado uns cinquenta.

Enquanto eu falava, minhas feições endureciam. A voz, que antes era apenas firme, agora carregava um peso mais sombrio, quase profético. Eu observava os dois homens ao longe, percebendo que estavam prestes a cruzar o fim da ponte.

— Isso dá uns trinta metros até eles. É uma distância arriscada, mas nada impossível, se eu for rápido o suficiente. Eu consigo pegar tudo de volta. Só me espera aqui, tá?

Você se encolheu. Os braços se cruzaram contra o peito, tentando, em vão, se proteger do que quer que estivesse acontecendo. E então veio aquele sorriso, frágil, hesitante, quase uma careta. Uma risadinha nervosa escapou, tremida, como se sua mente tivesse ativado um último mecanismo de defesa.

— H-Hahah.. voooocê tá brincando, né? — você disse, a voz alternando entre sarcasmo e pânico. — E-Eu nem sei quem é você, cara, do que é que você tá falan—

Mas, mais uma vez, não deixei você concluir. Dei um passo à frente, um passo firme, e você se viu forçada a recuar, encostando-se contra a cerca da ponte. E então, num gesto que me dilacerou mais do que deveria, fui dura com você. Pela primeira vez. Pela única vez. Mesmo sabendo que esse gesto ia doer mais em mim do que jamais doeria em você.

— Fica. Aqui. Você tá me entendendo? — falei com uma frieza que me era estranha, mas necessária.

Percebi, com clareza quase cruel, que você ainda tinha algo a dizer. Seus lábios se entreabriram, prontos para mais um protesto, talvez uma tentativa desesperada de recuperar o controle da situação, mas a vontade foi engolida junto com a saliva espessa do medo. Você apenas assentiu, de maneira rápida e quase automática, como quem aprendeu que, às vezes, o silêncio é o caminho mais seguro, embora eu soubesse que não seria capaz de fazer nada contra você nem em meus piores pesadelos.

— T-tá... só... só não me machuca, por favor. — sua voz saiu baixa, trêmula, carregada de exaustão, como se todas as reservas emocionais já tivessem sido drenadas.

Aquelas palavras me atravessaram como uma lâmina fina e silenciosa. O arrependimento começou a se manifestar de maneira física — um formigamento incômodo nas costas, um peso na nuca. Eu não queria isso. Não queria que você me temesse, que me visse como mais uma ameaça num mundo que já te castigava demais. O que restava de mim enquanto mãe se contorcia em dor por ter recorrido ao medo, à dureza, como única forma de ser ouvida. Mas, naquele momento, não havia mais volta. Era necessário.

— Eu não vou te machucar... só fica aqui e me espera, por favor. — disse, com a voz mais contida, agora dando alguns passos para longe. — Já perdi tempo demais conversando. Eu volto já.

Sem esperar por qualquer resposta sua, girei sobre os calcanhares e disparei na direção que os dois ladrões haviam tomado. Corri como quem corre para salvar o próprio passado. Cada batida do coração parecia ecoar como um tambor de guerra no peito, e eu me recusei a sentir cansaço. A adrenalina tomou as rédeas, e o único pensamento que martelava minha mente era: vou proteger você, custe o que custar.

Mesmo que agora, isso significasse me afundar ainda mais nessa versão extrema e irreconhecível de mim mesma.

A distância era de trinta metros — pelo menos, inicialmente. Mas, à medida que eles avançavam e eu me atrasava, esse número crescia, quase zombando da minha tentativa de alcançá-los. Ainda assim, não me deixei abalar. Meus pés se moviam com força e urgência, e em questão de segundos — cinco, talvez oito — eu atingi o fim da ponte. Mas como era de se esperar, eles já haviam cruzado e se misturado ao caos do outro lado.

— Cadê eles...? Pra onde é que aqueles filhos da puta foram...? — murmurei para mim mesma, os olhos inquietos vasculhando cada detalhe do novo cenário.

Ali, tudo parecia ter sido armado contra mim. A poluição visual daquela parte da cidade era um campo de camuflagem perfeito para dois vermes fugindo com o que não era deles. As vitrines coloridas, as fachadas gritantes de lojas, os carros empilhados em congestionamento... tudo isso transformava a busca em algo quase impossível. E, como se não bastasse, as calçadas estavam cheias de gente. Gente demais andando em grupos, distraídas, atravessando a rua sem se importar com nada além do próprio caminho.

Em resumo, era o tipo de lugar onde qualquer um podia facilmente se perder de si, entre buzinas impacientes, luzes que não apagavam nunca e rostos que cruzavam os seus sem nem perceber. Mas eu estava atenta. Cada passo, cada sombra, cada detalhe. Meus olhos varriam o ambiente como se já soubessem o que procurar, e foi assim que eu notei um carro.

Um sedã preto, aparentemente comum, com placas sem nada de extraordinário. Tinha um adesivo discreto no vidro traseiro, indicando o nome de um restaurante — um daqueles mais afastados, discretos, mas não necessariamente baratos. Era o tipo de lugar onde ninguém suspeitaria de nada. Perfeito, até demais.

E sim, haviam outros carros parecidos por ali. Era fácil descartar aquilo como coincidência. Mas então o carro estacionou. E eles desceram.

Mesmos casacos escuros com capuz puxado sobre os olhos, mesmas calças jeans surradas, mesma postura arrogante. Eram eles. Eu não tinha dúvida. Os passos confiantes, quase ensaiados, em direção à entrada do restaurante. Talvez um novo golpe. Talvez só uma pausa, um momento de descontração depois de destruírem a vida de mais alguém. Porque pra gente como eles, desgraça alheia era recreação.

Foi ali que a ideia nasceu.

Fui em direção ao estacionamento com a naturalidade de quem só queria conferir se trancou o próprio carro. Nada chamativo, tampouco brusco. E para minha sorte, eles haviam deixado as portas destrancadas. Um erro básico.

Arrogância ou preguiça?

Que se foda.

Ponto pra mim.

Do bolso da minha jaqueta, puxei um par de luvas. As mesmas daquele dia. Eu as havia dobrado milimetricamente, comprimidas num quadrado de tecido quase invisível. Vesti-as com cuidado, sentindo a frieza do látex encostar na pele como um lembrete de que aquilo não era um impulso, era uma missão.

Abri a porta traseira do carro com suavidade. Nenhum alarme, nenhum barulho. Entrei rapidamente e me encolhi abaixo dos bancos, num espaço apertado, mas familiar. O cheiro do carro me causava enjoo: cigarro barato, desodorante vencido e o resquício adocicado de algum energético artificial. Aquilo me dava mais certeza: eram exatamente o tipo de gente que não pensa nas consequências.

Enquanto esperava, aproveitei a posição para agir. Meus olhos encontraram, logo abaixo do painel frontal, o feixe de fios expostos — uma manutenção malfeita deixara a fiação vulnerável. Eles tinham mexido no sistema elétrico, provavelmente para instalar alguma gambiarra, talvez para evitar rastreio. E foi aí que eu soube o que fazer.

Com precisão cirúrgica, puxei meu canivete dobrável — também havia trago comigo apenas por precaução — e cortei os fios principais de ignição. Um por um. Sem pressa. Nada que fizesse o carro parecer danificado à primeira vista, mas o suficiente para impedir qualquer tentativa de fuga rápida. Depois, embolei os fios num nó insolúvel e os empurrei para dentro da carenagem, fora do alcance de mãos desesperadas.

Fiz isso em silêncio, com a respiração contida e o coração firme.

E então, me acomodei novamente debaixo dos bancos.

E então, eu os esperei.

Esperei cerca de dez minutos — sim, contei com precisão — até que finalmente ouvi passos se arrastando pela rua, num ritmo lento, quase coreografado pela embriaguez. Eles vinham rindo alto, como dois adolescentes idiotas se gabando de alguma travessura barata. Mas o som das risadas não era o que me incomodava. O que me atingiu como uma faca no estômago foi o conteúdo de suas piadas tortas: relatos dos roubos recentes, tratados como troféus de uma vida ridícula, incluindo o assalto a você, filha.

Mas não se preocupe, viu? Naquele momento, eu já tinha absoluta certeza: eles não sairiam mais dali. Não enquanto eu estivesse por perto. E, bem... ao menos tiveram a decência, ou a estupidez, de não furtar também a loja em que entraram. Evitava dor de cabeça com a polícia e, pra ser sincera, poupava tempo.

O grau de desconexão deles com a realidade era tão absurdo que nem se incomodaram em jogar sua bolsa e tudo que era seu no banco de trás como se fosse entulho qualquer. Um descuido grotesco que só facilitou meu trabalho. Mas o que realmente me fez sorrir — aquele tipo de sorriso amargo, silencioso — foi o presente inesperado: duas facas que escorregaram dos bolsos e caíram no tapete do carro, úmido, malcheiroso, uma verdadeira extensão do estado mental deles.

Agarrei cada faca com uma das mãos. O metal estava frio e incômodo, mas estranhamente familiar. Foi nesse momento que ouvi o som da tentativa de dar partida no carro. Um clique seco, frustrado. Depois outro. E mais outro.

— Que merda é essa? — resmungou o primeiro, a alegria etílica escorrendo da voz como cerveja velha numa sarjeta.

O segundo, ainda claramente à deriva no mar do álcool, soltava risadas espaçadas, os olhos vermelhos e perdidos.

— Hahh... hah... ficou bêbado e ficou burro também, é? — zombou, com um soluço no fim que o fazia parecer um boneco quebrado.

— Não, imbecil... o carro não tá ligando mesmo! — rosnou o primeiro, agora girando a chave com violência, como se a força pudesse ressuscitar a bateria morta.

— Sai daí, me dá isso aqui... certeza que tu tá fazendo tudo errado. — disse o segundo, impaciente, arrancando a chave da mão do outro e tentando do mesmo jeito, com a mesma fúria cega.

Nada. Nem um ruído de ignição, nem um estalo. O silêncio do motor foi quase poético.

— Acho que o carro... deu pau de novo. — murmurou o primeiro homem, afundando-se no banco do motorista com um suspiro frustrado, como quem já se habituou ao fracasso.

O segundo riu fraco, jogando a cabeça pra trás enquanto seu corpo relaxava, entregue à fadiga etílica.

— Ugh... todo dia essa porra. A gente devia usar esse dinheiro aí pra achar logo um mecânico decente. — disse, num tom arrastado, cuspindo as palavras com preguiça.

Enquanto eles trocavam reclamações banais, como se o universo não tivesse mudado de eixo minutos atrás, eu saí da sombra onde me escondia. Um passo de cada vez, firme, preciso, sem hesitação. As facas já estavam seguras nas minhas mãos, cada lâmina reluzindo como se soubesse o que estava prestes a acontecer.

— Não se preocupem... não vai mais precisar. — Minha voz soou nítida, limpa, quase serena, mas com o peso de uma sentença.

Eles sequer tiveram tempo de reagir. O susto mal havia chegado em seus olhos quando a lâmina cortou o ar e, em seguida, suas gargantas. O som foi abafado — talvez por sangue, talvez pela surpresa — e em segundos eles já estavam ofegantes, afogados no próprio desespero. Mas não bastava. A fúria dentro de mim ainda pulsava, exigia mais. Por isso, cravei as facas com brutalidade nos peitos deles, repetidamente, direto nos corações, como se estivesse fincando a justiça que o mundo lhe recusou.

Quando os corpos enfim cessaram qualquer movimento, quando o silêncio dentro do carro se tornou absoluto, eu soube que havia terminado.

Com rapidez, tirei as luvas, dobrei-as com cuidado e as enfiei de volta no bolso da jaqueta. Evitei o sangue, como sempre. Técnica refinada. Nenhuma marca.

Recuperei cada um dos seus pertences, filha. Bolsa, documentos, celular, até a chave da sua casa. Tudo estava lá, intacto, como se nada tivesse acontecido — exceto pelo mundo que deixei em ruínas atrás de mim.

Missão cumprida, é como dizem, não é?

Ao voltar, encontrei você exatamente onde havia pedido: sentada, encolhida, assustada — mas obediente, como sempre foi. Quando meus olhos cruzaram com os seus, pude ver aquele reflexo de medo surgindo de novo, como uma sombra familiar voltando a rondar. Você tentou disfarçar com um sorriso trêmulo, torto, que não convencia nem a si mesma.

Mas bastou eu estender sua bolsa, completa, limpa, cheia. Seus olhos se arregalaram. Por um instante, você hesitou em acreditar que eu realmente tinha feito aquilo... que eu tinha ido... e voltado.

Você pegou tudo de volta com mãos vacilantes e, então, sorriu. Mas dessa vez foi diferente. Era genuíno. Era o sorriso que eu lembrava, o que aquecia meu peito mesmo nos dias mais escuros. E, naquele momento, nada mais importava.

Você me agradeceu. Disse que me devia uma. Eu neguei, é claro. Aquilo não era dívida. Pra mim, aquilo era o mínimo.

Você se despediu de mim com aquele sorriso leve e um brilho nos olhos que, por instantes, fez o mundo parecer menos pesado. Havia em você uma felicidade genuína, um alívio quase palpável — como se um fardo tivesse finalmente escorregado das suas costas.

Antes de ir, ainda me perguntou como eu tinha conseguido recuperar suas coisas. Sorri, encolhi os ombros e soltei uma daquelas respostas vagas, cuidadosamente montadas para esconder a verdade. Inventei qualquer desculpa — um achado de sorte, uma ajuda inesperada, um blefe bem contado. A verdade, como sempre, ficou enterrada entre linhas falsas, silêncios estratégicos e uma ponta de dor.

Talvez um dia você descubra. Talvez leia sobre isso em algum canto de jornal sensacionalista, entre relatos desconexos e manchetes que não me mencionam diretamente. Mas mesmo que descubra, mesmo que tudo venha à tona, eu duvido que você consiga me reconhecer ali. Porque, quando isso acontecer, eu já terei desaparecido de novo. Outro nome, outra identidade.

Mas nada disso importa tanto quanto aquele seu simples e sincero “obrigada”.

Fez tudo parecer valer minimamente a pena.


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